Sou terapeuta da fala e comecei a trabalhar para o Ministério da Educação em 2007. Tenho estado, todos estes anos, com contratos a termo certo, com a justificação de que respondo a necessidades de trabalho ‘temporárias’. São quase 10 anos de incerteza e impossibilidade de programar o ano seguinte. São quase 10 anos de planos adiados e de dúvida. São quase 10 anos a cumprir todos os deveres de cidadã deste país e a ver negados os meus direitos fundamentais enquanto trabalhadora.

Tenho exercido a minha atividade profissional em Unidades de Ensino Estruturado para a Educação de Alunos com Perturbação do Espetro do Autismo e em Unidades de Apoio Especializado para a Educação de Alunos com Multideficiência e Surdocegueira Congénita. Todos os anos, concorro a vagas disponibilizadas pelos Agrupamentos de Escolas, por norma, após o início do ano letivo. Os critérios de contratação são pouco claros e cada Agrupamento faz uma interpretação particular da forma como deve aplicá-los. Durante os meses de setembro e outubro, enquanto me encontro desempregada, a minha vida é candidatar-me a vagas, fazer portefólios, ir a entrevistas e esperar que tudo corra pelo melhor. A cada colocação, os alunos perdem, sensivelmente, um mês de intervenção no início do ano letivo e eu perco tempo, demasiado tempo. No fim do contrato, geralmente no fim de agosto, volto a iniciar este ciclo que parece não ter fim. Pode até pensar-se, com alguma ingenuidade, que é por razões economicistas que este ciclo não se quebra, mas não é bem assim. A cada término de contrato, é de lei, embora nem sempre cumprida, que tenho direito a uma indemnização por caducidade de contrato, que somada ao subsídio de desemprego, significa que o estado não poupa dinheiro em manter os técnicos especializados precários e perde tempo e qualidade, com a quebra da continuidade no acompanhamento das crianças com Necessidades Educativas Especiais.

Cabe-me ainda alertar para o facto de se terem verificado sucessivas tentativas de passar os terapeutas para subcontratação, através dos Centros de Recursos para a Inclusão. A nossa situação profissional nestas instituições é ainda mais precária, com prejuízo do tempo que temos disponível para trabalhar com cada aluno e das condições profissionais.

Por fim, queria apenas referir que o vínculo que se cria com a equipa escolar, os alunos e as famílias é fundamental para a intervenção e, por isso, partilho com eles a ansiedade de não saber se existirá continuidade no trabalho que está a ser desenvolvido. A cada ano em que se quebra a continuidade do trabalho, são novas avaliações, novas relações terapêuticas, nova forma de funcionamento e novo começo.

Passou quase uma década desde que comecei a trabalhar e, findo o próximo agosto, é como se tivesse de começar tudo de novo.

Sinto esgotarem-se as energias de toda uma geração que paga muito e nada recebe. Uma geração que abraça o infortúnio de viver neste país e lembra com saudade o tempo que nunca foi o nosso.

― Terapeuta da Fala contratada pelo Ministério da Educação